domingo, 20 de junho de 2010

Faz todo sentido.

Seis da manhã. Onze da noite. Meu dia começa e termina, respectivamente, nesses horários. Às vezes, sinto-me como se estivesse presa a um certo meme, a um certo ritual, a uma certa imposição da qual não estou apta a me livrar. As horas restantes são nas quais desligo do meu eu e vou para outro plano, seja lá qual for. Só não sei se, lá, sou quem penso ser, ou quem gostaria que fosse. Se eu fosse eu, como diria Martha Medeiros, faria qualquer coisa que quisesse a qualquer horário. Mas, descobri que nem sempre é tão fácil ser eu mesma a toda hora. Se eu fosse "eu" cada vez que quisesse, seria (muito) menos tolerante, com os outros e comigo mesma. Seria mais livre para rir do que quisesse. Seria mais tola ao dizer o que penso a quem acha que eu sou tola a ponto de crer em certas tolices. Não gostaria que certos dias acabassem, e esperaria ansiosamente pela próxima manhã. Se eu fosse quem penso que deveria ser, me renderia mais facilmente ao desconhecido. Exporia mais meus defeitos, afinal não preciso de quem não os aceita. Me deixaria, também, enganar mais vezes, porque a vida sem conflitos não vale a pena. Tentaria me libertar da loucura que corrói meu cérebro a ponto deste autoflagelar-se e reprimir-se por certas situações... Se eu fosse o eu que gostaria, esse pseudo-eu, não falaria quase nada. Só o necessário para me comunicar.

É. Definitivamente, ser eu é muito mais monótono e (totalmente) sem sentido do que eu pensava. De qualquer maneira, vivo. Reconheço. Mas quase desconheço quem sou. Gosto disso.

"E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar." Clarice Lispector

4 comentários:

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  3. “Só não sei se, lá, sou quem penso ser, ou quem gostaria que fosse.”
    Luiza, que bonito teu texto, achei que foi profundo na medida e conseguiu ser bem claro e preciso. Até pude entender, tu resolveu pra ti mesma esse dilema no texto, se certamente tu não é quem tu gostarias de ser (“lá”) naqueles momentos em que tu aparentemente não estás presa (os que estão fora do ritualístico cotidiano), tu não pode deixar de ser quem pensa ser. Se o que tu pensa ser entra em conflito com quem tu gostarias de ser, então definitivamente tudo parece monótono e sem sentido. Ora, parece que desejamos mais do que a liberdade de ser quem pensamos. Isso não é suficiente para que as coisas façam sentido e que sintamos que estamos indo em busca de nossa felicidade.
    Minha recomendação: faça do seu pensar ser um meio para poder ser quem pensar. Seja quem quiser ser e como quiser pensar.

    Bjaoo. Saudades.
    ps. espero que tenha feito algum sentido;

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  4. Leika. Simplesmente arrebatador. Esta cabecinha é muito mais pensante do que eu poderia pensar e muito mais profunda do que a superfície dos rituais diários te permitem ser. Me identifico 100% com o que escreveu. Aliás,é muito engraçado, mas parece uma bela tradução do que eu penso. Isso é muito bala, principalmente vindo de ti, que é um pouco (muito) de mim! Beijoooossssssssssss

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