quarta-feira, 21 de julho de 2010

Humanize


Há pouco mais de um ano, assisti a uma palestra em que a jornalista Eliane Brum, repórter especial da revista Época, contou um pouco sobre a profissão repórter, através de relatos de suas experiências.
Hoje, enquanto andava pela Faria Lima, enxerguei um mendigo, obviamente todo sujo, e com as características físicas de todo mendigo. Eis que o homem falava com si próprio! Normal, né... a maioria dos mendigos faz isso. Uns apenas exageram um pouco mais, outros menos. E a primeira coisa na qual pensei foi: "credo, eu hein..."
E o que isso tem a ver com a palestra? Bom, vamos lá.

Eliane explicou que o repórter precisa ter, em geral, fragilidade e perceptividade ao analisar personagens da vida real e relatar suas histórias. Na minha percepção, porém, isso se aplica a toda sociedade!
Tudo bem que a mídia, de fato, é quem estipula quem vai ganhar "espaço" e exposição nos veículos. Ela é quem torna certas pessoas visíveis, enquanto que outras ficam invisíveis. E é apenas aí que essas características (fragilidade e perceptividade) se diferem - ou ao menos deveriam - dos cidadãos "normais".

Voltando à "loucura", puro preconceito da minha parte julgar aquele homem apenas pelo fato dele estar à margem do que considero "normal" pra uma pessoa. Eliane, numa de suas reportagens, traçou o perfil justamente desse tipo: um homem louco, aos olhos alheios. Era conhecido como o "gaúcho do cavalo de pau", porque vivia montado num cabo de vassoura fingindo cavalgar por aí. Não preciso nem perguntar se alguém consideraria isso algo sensato, com uma explicação viável e se interessaria em saber o porquê

Aí então é que entra a fragilidade, e mais que isso, a sensibilidade. Um mero invisível aos olhos e ao interesse dos cidadãos e da mídia. Entretanto, o que poderia parecer simples loucura aos olhos de quem o via, sem enxergá-lo de fato, tinha uma explicação. E razoável: era a forma encontrada por ele de subverter aquela realidade a qual estava submetido. Era como uma válvula de escape. Sua vida era mais feliz assim.

Os bastidores dessa reportagem estão no livro "Olhar e Escuta", publicado pela jornalista. E não recomendo só aos estudantes de comunicação. Porque comunicar faz parte da vida de todos nós, embora nem sempre o façamos de forma sensata. E é uma coisa involuntária, eu sei. Porém, há varias formas de abrir nossos olhos e nossa escuta. Aliás, se eu fosse hierarquizá-los, estariam no mesmo nível.

E é aí que quero chegar: não é muito mais cômodo pra nós, seres humanos em geral, acreditarmos em nossa verdade a tentar compreender o porquê de certas coisas?

Olhar. Enxergar. Ouvir. Compreender...

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