sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Aquela Menina



Olheiras escurecidas e profundas, rosto pálido e cabelos frágeis. Marcas de um passado que nunca a ela acrescentou. Noites sem fim, músicas altas, sozinha em meio à multidão. Madrugadas acordadas e dias que nunca voltarão. Preocupações fúteis, quase inúteis, mas como o mundo, aquele tão perto e tão distante que a cercavam. Um mundo que não existe mais, a que não pertence mais. Amigos que não voltam, rostos que nunca viu, conversas apagadas.

Lágrimas esquecidas, olhos que não a viram, vozes não mais irá ouvir. Lembranças que não se vão do que sequer existiu. Pobre a menina, que não volta mais. A menina, que nunca se importou: não consigo mesma. Sem vaidades, sem maldades, preconceitos ou julgamentos. Por outro lado, falsas verdades, falsas amigas, falsas vontades.

Não se dava conta de, sequer, sua dimensão: corpo miúdo, gigante coração. Passado de que já não depende mais. Falsas ilusões de uma vida real: verdade que a puxa para dimensões a que jamais pensou chegar. Palavras, promessas, como se bastassem – tão abstratas quanto o fluido por onde voam os aviões. Como memórias intocáveis, inquebráveis. Crenças no chão, sem o perdão de quem não a entendeu.

Se alguém a contasse o que a esperava do outro lado do portal, aquele dos anos, ela não iria acreditar. Nem se passaram tantos assim, mas já suficientes para fazer com que sua essência permanecesse intacta. Medo, do escuro, mas não por falta de luz: por falta de discernimento. Que bom que aquela menina cresceu, aprendeu, ouviu e observou. Observou o que era verdade e o que a fazia bem. Ouviu quem tinha a ela dizer para crescer; aprendeu que alegria se construía em momentos.

Não fez amizades: consolidou as antigas, e continuou a buscar o caminho para a luz. Sem se importar consigo mesma – só quer construir sorrisos. E engrandecer. Uma realidade que ela nunca imaginou.

Olheiras escurecidas e profundas, rosto pálido e cabelos frágeis. Serão as futuras marcas de um passado com que sempre sonhou.